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21/03/2012

Umberto Restaurante - Uma apurada experiência sensorial gastronômica

Texto publicado originalmente e na íntegra no Fila K em 13/11/2011.


Um dos prazeres da vida, além de ir muito ao cinema, é comer. Saborear os mesmos pratos, sentir sua acidez, suavidade e outros, um aroma diferente ou igual a outros momentos... adoro (adoramos) comer. Dito isso, fã como sou dessa mania de compras coletivas que se instaurou no país desde 2010, compramos, eu e a Lu, um cupom para um Menu Degustação no Umberto Restaurante, local que sempre nos chamou a atenção, pois sempre que pegamos um táxi saindo do Instituto NT ou do Shopping Moinhos (após sessões de cinema, claro), passamos com frequência na frente deste local. A propósito, praticamente ao lado do Umberto Restaurante existe um local chamado Chocólatras Bar, local tipo uma delicatessen, onde, é claro, o chocolate é servido das mais variadas formas. Em breve devemos ir ao local, e quem sabe não surja um novo post, dessa vez envolvendo a “perdição” de muitos: o chocolate! 
Essa imagem foi retirada do site do Umberto Restaurante 
Primeiramente o que seria o tal Menu Degustação? São porções pequenas, à francesa, como diria o funcionário da casa, de pratos já selecionados. Diga-se de passagem, algo pouco em prática em Porto Alegre, quem sabe com o tempo acabe por ganhar mais adeptos...

Tentamos marcar reserva para 19h30, mas nos foi orientado que aos sábados seria melhor a partir de 19h45, 19h50 seria o mais adequado. Assim sendo, 19h50 (com 27 segundos para ser mais exato) chegamos ao local. De fato, observamos uma lambreta em frente ao estabelecimento. Tal meio de transporte apenas deixa claro o que veremos dentro da casa, um ambiente belíssimo, um equilíbrio de algo bem alinhado com o retrô. Retrô? Sim, em cada canto do estabelecimento há algo que remete há tempos passados: seja brinquedos, despertadores antigos, aparelhos de som da época da válvula, ferro de passar roupa... esse toque cria uma atmosfera serena e delicada ao local.



Poucos minutos após nossa escolha de onde ficarmos, ao lado de quadros que mostram uma cidadezinha a qual nunca vi pessoalmente, mas sempre me encantou, Londres. Os quadros em preto e branco mostrando vários lugares, entre eles o Big Ben... ah, melhor mesmo se tivesse uma foto mostrando chuva, seria perfeito. Possivelmente exista tal foto no recinto, mas não tive a percepção para parar e ir à procura... lamentável para um adorador das gotas que caem do céu e por supuesto, uma pessoa com grande rixa ao invasor solar que atrapalha a água nos dias chuvosos (“Nunca pude soportar ver salir el sol después de una tormenta. Mi idea de un dia de lluvia es que debe llover hasta la noche. Que el sol salga a la mañana siguiente, vaya y pase, pero ¿así?... Que el sol interrumpa donde nadie lo llama... En los dias de lluvia el sol es un intruso imperdonable.” **¹), chega na casa o Chef Michel Vallandro, acompanhado de seu simpático filho, Francisco (que o inspirou para o nome de seu antigo estabelecimento, o Francesco Bistrô), nos cumprimenta e nos deixa ainda mais a vontade em seu restaurante, como se isso fosse ainda mais necessário.




Optamos, para acompanhar esse Menu Degustação e saborear os pratos, um bom vinho. Primeiramente nossa escolha foi um Boscato Reserva Merlot. Infelizmente estava em falta. Foram-nos apresentados outros 3 vinhos similares. Optamos pelo Zentas Reserva Merlot 2008. Oh Lord, Dio Mio, Madre de Dios e que venham mais palavras! Que vinho senhoras e senhores, um vinho impecável o qual desconhecia... Recomendo a todos, sem restrição (só beba com moderação)!






Tão logo experimentamos a nossa primeira taça, chegou o couvert que solicitamos. O foie gras com compota de ameixas, a manteiga fresca com toques de sal, os pãezinhos aromatizados, torradinhos, grelhados por fora, mas quando mastigados revelando-se tão suaves e leves, a caponatta de berinjela agridoce com azeite, também igualmente saborosa, as castanhas de caju para acompanhar...




Não conseguimos ficar em apenas uma rodada de pães, nos foi questionado que queríamos mais pães... sim! Limpamos o couvert, só sobrou mesmo a manteiga!




Assim, estávamos preparados para o dito Menu Degustação, nosso real motivo para ir ao local e utilizar do cupom de compra coletiva...


O primeiro prato, que seria a primeira entrada, foi um creme de aspargos com ceboletas frescas. Quem disse que creme de aspargos precisa ser e é sempre algo grosso e consistente está plenamente errado! Servido em uma xícara, parecia um caldo, de tão suave... O toque das ceboletas deu um algo a mais, fazendo a entrada se tornar especial.




segunda entrada, fundos de alcachofra ao vinagrete de salsa, acompanhados de uma salada folhas de verdes e gergelim tostado... A salada era composta por alface crespa, couve chinesa, chicória e mostarda. As folhas de mostarda... hummm tinham um sabor incrível, marcante. Poucas vezes pudemos observar na prática o real significado da palavra gastronomia: extrair 100% de um determinado produto**².




A ideia de começar com algo mais acentuado no sabor, no salgado, para depois entrar na salada foi impecável para adentrarmos no terceiro prato, agora o primeiro prato principal (nisso, a garrafa de vinho já estava na metade, Maza mais discreto, Lu mais a mil): salmão grelhado com mil folhas de abobrinha e molho vervene (molho da redução do peixe), com um toque de pesto por cima.




Foi o prato que mais me (nos) encantou, nem precisei movimentar o rosto, me inclinar ao prato, pois o aroma do filete de salmão era algo que variava entre o levemente tostado e o molho que o acompanhava. Feito na medida, o tostado foi apenas uma pequena parte do salmão, dando um caráter todo especial para aquele prato. Nisso, já estávamos quase de joelhos em volta da mesa, tamanhas eram as iguarias e sabores que já nos haviam sido apresentados.




O quarto prato da noite, ou o segundo prato principal, era o que tínhamos uma antecipada expectativa, o entrecot com risoto trufado e castanhas ao molho roti, talvez por termos visto no mesmo dia (através de um vídeo), como era feito o risoto e outros. Solicitamos que a carne viesse entre ao ponto e bem passada. Cerca de 3 minutos depois o prato já estava em nossa mesa... A apresentação do prato foi acima da média já tão elevada, aquele risoto com o entrecot por cima e o prato todo salpicado por ceboletes, uma visão dos deuses, ou como diria o garçom, “tão bonito que dá até pena de comer”. 




Quando cortamos a carne, notamos que ela estava mal passada, levemente crua até. O atendente notou isso e retirou a carne de nosso prato e retornou com ela para a cozinha. Ficamos esperando a carne bem passada e beliscando de leve o arroz, soltinho, delicioso, os temperos verdes, o molho... Mesmo sem parte o prato era mesmo dos deuses, um risoto e tanto! Passados 5 minutos, o garçom retornou à nossa mesa e surpresa, nos trouxe outro prato completo! Dessa vez a parte estava saborosa, mas uma pena, estava sem as ceboletes que tanto nos “encheram os olhos” anteriormente, e o arroz não estava tão solto, alguns grãos nos pareceram mais duros que os outros. Como foi nossa experiência com o prato? Muito boa, muito boa. Mas é bom salientar que os 3 pratos anteriores estavam excelentes, logo esse ficou abaixo da elevada média que criamos até ali.




Para finalizar, pedimos um tempo para saborear o vinho, a ambientação e outros. Após uma pausa de 15 minutos, solicitamos que fosse servida a sobremesa: Carolina de creme ao coulis de tangerina e especiarias, nosso quinto e último prato da noite. A leveza do creme, que mais parecia um sorvete era quebrada pelo forte sabor da tangerina, criando uma combinação e tanto, uma finalização absolutamente inimaginável inicialmente!




Solicitamos a conta, e até nisso ficamos surpresos, pois imaginávamos um valor bem superior: 104 reais. Considerando que o Menu Degustação ficou de 150 por 90 reais para duas pessoas, o valor total ficou pouco abaixo de 100 reais por pessoa. Se levarmos em conta que tomamos um excelente vinho, e saboreamos um couvert igualmente arrebatador, se você retirar isso da lista dos investimentos, o custo ficaria na faixa de 50-55 reais por pessoa, um valor que se você for a uma das churrascarias de espeto corrido mais badaladas da capital gaúcha, não conseguirá pagar por esse valor. Se for ao Dado Bier/Outback/Applebee´s (a fim de jantar e beber bem, no caso do Outback e Applebee´s, levar em conta que o comentário desconsidera o horário do happy hour e sua tão imbatível rodada dupla), também acredito que não ficará abaixo disso. Barato? Não, não somos cínicos ou prepotentes a ponto de indicar isso. Custo x Benefício aceitável? Mais do que aceitável, plenamente justificável, valendo cada centavo das quase 3 horas que ficamos no estabelecimento. Se recomendo a todos? Se a pessoa tiver condições, sim. 


É importante informar que pouco depois da conta, pedimos para conversar com o Chef Michel Vallandro sobre nossa experiência gastronômica no local. Foi uma conversa que levou mais de 10, 15 minutos. Nossa conversa passou por de tudo um pouco: críticas de cinema, clientes que elogiam e criticam também, alta gastronomia, público de Porto Alegre e sua relação com a gastronomia, filmes relacionados à culinária... Nisso, comentamos sobre a nossa experiência com o risoto, na qual o Chef foi sincero ao informar que houve de fato uma falha de logística no prato e na entrega em nossa mesa. Falamos ainda sobre cobranças que nós mesmos nos impomos no cotidiano, seja na elaboração de uma crítica de cinema como, é claro, na composição de um prato e o resultado final para o consumidor. Foi uma conversa de quem parecia já conhecer o chef há anos, quando na verdade o conhecíamos de nome, de pesquisas no amigo Google, mas pessoalmente, primeira vez. 




Comentamos principalmente dessa questão da culinária, não apenas como comer o básico do cotidiano, mas ora, experimentar novas coisas. O cinema e a culinária têm sim uma relação forte nisso. Como bem lembramos em Ratatouille, quando o chefe de cozinha prova o prato que dá nome ao filme, isso remete diretamente a sua infância...




Como em Julie & Julia, que cada prato remete à sua sensação do passado, do presente e quem sabe até do futuro, quando você pensa em retornar ao local mais vezes, ou até elaborar seu próprio prato. Quantas vezes não comentamos da sensação magnífica que é ir, entrar em uma sala de cinema e esperar as luzes se apagarem, você ser transportado para outro local, mundo, onde os 5 sentidos (no mínimo) são colocados a prova durante a projeção de um filme.




E como não beber um excelente vinho e não nos lembrarmos do genial e solitário Mille de Sideways? A culinária de uma forma ou de outra está interligada com a Sétima Arte, e quanto mais experiências desse tipo acontecerem, mais elas permanecerão tendo uma espécie de elo, de ligação, seja qual seja a sua forma de ir ao cinema ou fazer uma refeição. E que atire a primeira pedra quem nunca foi ao cinema com pipoca e refrigerante, ou viu um filme em uma casa com um prato na frente, um copo do lado, e os olhares atentos pelo que observa à sua frente, com as imagens em movimento!



Saímos de lá com sorrisos de ponta a ponta do rosto. E não é fácil, e nem queremos que o seja, esquecer tal experiência. Esperamos que logo, muito em breve, possamos retornar ao tão adorável (e interessante, elogiável, acima da média, etc.) local, para mais uma vez sermos transportados a isso tudo.




Observações: agradeço imensamente à parceira de cinema e gastronomia Luciana, sempre tendo a mente aberta para novas experiências desse sentido e não partindo para reclamações de antecipação como: que o preço é algo, o local não nos agrada, etc, etc. As fotos podem não ter ficado excelentes, mas é nosso esforço para tentar passar um pouquinho que seja de nossa experiência no local... Se conseguirmos passar 1% dela, já valeu o esforço. Salientamos que não recebemos nada, absolutamente nada quando da menção dos restaurantes aqui citados, falamos porque realmente frequentamos e porque adoramos tais locais, além de, é claro, indicarmos e sempre tentarmos realizar Happy Hours nesses locais. Nem todos aceitam bem essa ideia, mas quer saber? Para cada um que amarra a cara (isso mesmo!!) com encontros em Dado Bier/Outback/Applebee´s (a trinca de preferência desses blogueiros e cinéfilos... e pasmem, locais sem consumação mínima, derrubando miseravelmente aquele dito popular estúpido e patético de que não vamos a esses locais, não vamos ao seu happy hour ou aniversário porque são caros. Ora carambolas, jantem antes, façam lanches depois, apreciem o ambiente, clima, amigos e conversas variadas, deixem seus preconceitos do lado de fora do estabelecimento e apreciem um estilo de vida peculiar e intenso, sejam felizes!), outros dois saltam nos apoiando e elogiando a iniciativa logo... Assim continuaremos!!


Notas:


**¹ Sacheri, Eduardo – La pregunta de sus ojos – 1ª ed. 6ª reimp. – Buenos Aires: Alfaguara, 2010 – pág. 66;


**² Definição do termo gastronomia colocada mais ou menos nessas palavras, pelo Chef Michel Vallandro, no momento de nossa conversa.


Update: Conforme comentamos que faríamos, retornamos ao Umberto em fevereiro último. Um espetáculo igual à primeira ida, atendimento pontual, o Chef Michel Vallandro novamente passando pelas mesas e verificando como estavam sendo tratados seus clientes, ambiente favorável... Mais uma noite e tanto. E se na primeira vez a conta ficou na faixa dos 100 reais por pessoa, dessa vez levamos um Malbec ano 2008 (imperdoavelmente não me lembro de qual vinícola era tal vinho) e o custo da rolha ficou em 25 reais, preço mais que justo e que fez a experiência ficar ainda mais em conta, na casa dos 75 a 80 reais por pessoa.



UmbertoRestaurante
Rua Mata Bacelar, 132 – Auxiliadora – Porto Alegre/RS
Fone: (51) 3019 2751

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