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17/10/2013

Os Suspeitos


Depois do excelente, intenso e desconfortável (no bom sentido, é claro) Incêndios (Incendies, 2010), o diretor Denis Villeneuve nos brinda agora com o thriller dramático Os Suspeitos (Prisoners, 2013). Esses são dois filmes completamente diferentes, porém, ambos tocam o espectador de forma ampla e direta, um sendo desconfortável, como já citei, enquanto o outro, entre muitas coisas, incita o questionamento sobre até que ponto somos capazes de ir para defender nossos entes queridos.

Partindo do ponto em que vemos pai e filho caçando um veado, onde antes de abater o animal o pai reza uma prece, no claro intuito de se desculpar por aquela ação, seguimos para o que será de fato o ponto de partida para todos os acontecimentos do longa: o almoço do Dia de Ação de Graças, onde as famílias Dover e Birch, percebem que suas filhas pequenas desapareceram. É interessante notar como desde o momento em que os Dover saem de casa em direção à casa dos amigos, a aura de suspense que ronda a família nos diz que algo está para acontecer.

O sumiço de Anna Dover e Joy Birch se dá logo após o almoço, quando Anna pede aos pais para voltar em casa na companhia da amiguinha e procurar seu “apito vermelho de emergência”, que havia perdido. Ao concordar que as meninas fossem com seus irmãos mais velhos, as famílias passam a tarde descansadas, até que percebem que elas saíram sozinhas. E que não voltaram. A partir daí o ritmo dos acontecimentos se acelera e qualquer pista pode ser importante para encontrá-las, como por exemplo, o trailer que havia estacionado perto da casa e as garotas haviam se interessado mais cedo em um passeio com os irmãos.


Alex Jones (Paul Dano), dono do trailer que é encontrado posteriormente pelo Detetive Loki (Jake Gyllenhaal), à beira de uma floresta e em uma noite de chuva torrencial, torna-se o principal suspeito ao tentar fugir do local quando abordado. O rapaz é levado por Loki e interrogado, mas por não ter provas contra ele acaba sendo solto, o que desperta a ira de Keller Dover (Hugh Jackman), que resolve investigar Alex por conta própria.

“A atuação de Hugh Jackman está soberba”. Ele nos entrega em Keller um personagem forte, determinado, capaz de tudo por sua família. E quando eu digo tudo, é tudo mesmo, inclusive ir contra os seus princípios e sequestrar e torturar o principal suspeito de ter levado sua filha, mas não sem antes rezar e pedir perdão por seus atos. Aliás, o filme como um todo é permeado por inserções religiosas, mas sem exagero, movendo a ação de alguns dos personagens. Maria Bello interpreta com afinco a esposa de Keller, Grace Dover. Sua personagem é quase delicada, entra em surto facilmente e nos convence de sua quase loucura apenas por seu olhar.

Os pais de Joy, Franklin e Nancy Birch, são vividos por Terrence Howard e Viola Davis, respectivamente. Franklin é mais sereno, se deixa levar pelos impulsos de Keller e não deixa muito a acrescentar como personagem além de pai desesperado pelo sumiço da filha. Mas com relação à Nancy, que atuação de Viola Davis! Ela consegue perder o olhar e se deixar levar pela tristeza enquanto observamos sua cozinha completamente bagunçada, com os pratos, copos e restos do almoço de Ação de Graças que ocorrera dias antes, e no momento seguinte se impor diante das decisões de Keller e do marido de forma enérgica. Ouso acrescentar que, não fosse Melissa Leo e Jake Gyllenhaal, poderia ser dela a melhor interpretação no filme. Já que citei Melissa Leo, sua personagem é Holly Jones, tia de Alex, que entra em cena de forma reservada, mas que vai ganhando espaço e nossa consideração ao longo do segundo e do terceiro atos, visto que seu sobrinho Alex está em “evidência” por causa do sequestro. Fechando com relação às atuações, temos um detetive ousado, marcante, vivido por Jake Gyllenhaal. Loki possui, digamos, algumas manias, como o constante mexer das sobrancelhas, o que concede ao personagem um ar inquietante.


Complementando o clima de tensão que presenciamos ao longo do filme, temos fatores como a frieza, e por que não dizer o ar de suspense, transmitidos pela excelente fotografia de Roger Deakins, onde vemos muita neve, muita chuva e locais escuros, suspeitos, em grande parte das vezes acompanhados por sombras. A música de Johann Johannsson é precisa, marcante, retumbando em nossos ouvidos em momentos pontuais, mas sabendo se manter distante dos momentos em que o silêncio se faz necessário.

O roteiro de Aaron Guzikowski nos leva a acompanhar cada ato, cada cena, com a máxima atenção, deixando algumas pistas durante o filme – como Bob Taylor, que entra em cena para auxiliar em alguns pontos e nos entregar, em minha opinião, uma das cenas mais tensas do longa –, mas em momento algum explicitando o que deseja ao espectador: precisamos pensar por nós mesmos, e em alguns momentos torcer para que determinado personagem aja rápido, lembre de algo, pois estamos a sua frente e já percebemos algo extremamente importante. Nada é por acaso. Não passamos apenas pelo filme, fazemos parte dele no quesito interpretação, mas nada nos prepara para o grande momento do terceiro ato, onde nos perguntamos em que instante deixamos passar essa ou aquela informação, ou em que ponto nos perdemos e não percebemos o que estava para acontecer.

Finalizando de forma espetacular, Os Suspeitos – acho que o título original, Prisoners, tem muito mais a ver com o contexto, mas ok! – é um filme intrigante, inteligente, que começa aos poucos enredar o espectador e quando vemos estamos imersos nele de tal forma que quando somos surpreendidos pelo seu final, ficamos a ponderar ainda mais sobre cada ato de cada personagem que acompanhamos durante os seus pouco menos de 150 minutos de duração. E é um filme que quanto mais analisamos, mais interessante ele fica, mais nuances são reveladas, mostrando que Denis Villeneuve sabe o que fazer para prender o espectador à história, ou vai dizer que também não ficamos refletindo dias a fio sobre Incêndios, após tê-lo assistido?

Cotação: 5/5

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