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10/05/2014

Inatividade Paranormal 2


Atenção: isto não é uma crítica. Talvez nem bem possa ser considerado um texto, na concepção da palavra. É apenas um relato sobre os acontecimentos de uma sessão de cinema de um filme ruim. Se você não quer saber o que acontece no filme, a história acaba aqui. Se você quiser continuar, siga por sua conta e risco, mas lembre-se: a escrita está no mesmo patamar do filme visto. Os relatos abaixo são reais e foram exibidos no filme Inatividade Paranormal 2. Qualquer dúvida se isto é real ou imaginação do escritor, recomendo que veja o filme. E divirta-se, caso consiga.

Lembro-me de ver Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu quando tinha uns 8 anos e achar graça. Depois rever com 18 anos e achar graça. Igualmente com 28 e 38 (opa, essa última ainda não). Mas, essencialmente, eu olhava o filme quando era criança e não olhava escondido. É bem provável que quando criança não pegasse todas as piadas envolvendo sexualidade, mas isso era o de menos, eram (ou são, faz tempo que não olho o filme) piadas de fácil compreensão e principalmente, nada apelativas ou pornográficas. Era um filme, considerando seus momentos obviamente politicamente incorretos, para todas as idades (ainda sonho com o dia em que filmes como Vivos, Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu, O Voo e outros sejam exibidos em viagens aéreas, mas acredito que irei morrer sem ver isso, o público é muito, digamos, medroso, borrão... mas divago), com bom ritmo e com uma ideia de roteiro. Digo tudo isso, pois ver Inatividade Paranormal 2 é o completo oposto, uma sucessão de momentos sem graça, imbecis, racistas e claro, com conteúdo de apelo sexual de extremo mau-gosto.

Vagamente, muito vagamente, lembro-me do primeiro filme, que tinha as referências aos filmes recentes, tinha transa com bicho de pelúcia (essa foi o amigo Rafael Botelho que me lembrou) e que ao longo de seus cansativos mais de 80 minutos, quase esbocei um sorriso em alguma parte do filme (não lembro, não interessa e não importa qual parte do filme). Esse segundo não foge muito à linha da ‘primeira parte’. O filme estrelado por Marlon Wayans (esse cara realmente é bom, faz uns filmes ruins da porra e sempre consegue verba para mais filmes, quero saber qual é o seu segredo... na verdade não quero não). De novo, as referências trabalham em cima (ou debaixo, na diagonal, coisas do tipo) dos filmes de terror que simulam gravações supostamente reais e amadoras encontradas posteriormente por alguém, contendo imagens do tipo: fantasmas se divertem (pera, esse é outro filme), ruídos estranhos na madrugada, vultos, objetos se movendo sem explicação aparente, essas porcarias todas. Mas, como começa o filme? Depois de sofrer um acidente de carro e perder sua namorada (que naquele momento estava possuída) – Kisha (sim, começo do filme é a referência ao SPOILERSSSSSSSSSS final de A filha do Mal), temos um salto na história (começou cedo a originalidade) e observamos o protagonista casado com uma loira mãe solteira, e então eles resolvem mudar de casa. O resto você pode imaginar.

Ou não pode. Pense nas situações absurdas e sem graça que está acostumado a lidar. É pior. Wayans (que ‘roteirizou’/participou da produção do filme) e Michael Tiddes (diretor do filme) devem acreditar que jogar em cena referências e mais referências a dezenas de outros filmes, sem importar qual o sentido delas em cena, já basta para um bom filme. Além disso, Wayans (como ator) opta pelo exagero em praticamente todas as cenas. Isso fica claro desde o começo, quando em determinado momento o cachorro de estimação morre esmagado e Wayans fica quase 1 minuto chorando, atirado no chão, querendo que o cão sobreviva, falando todo o tipo de asneira, e possivelmente acreditando que está causando bem estar e riso na plateia (por sinal, cena semelhante já acontece no primeiro filme e não tem a menor graça). A propósito: na cena citada do cão observamos outro aspecto genial do humor do filme: o preconceito racial. Em boa parte do filme vemos um vizinho mexicano, que só entra em cena para ficar falando que Wayans é racista e tudo mais, que tem preconceito contra os mexicanos e outras etnias. Malcolm (interpretado por ele mesmo, Marlon Wayans) fica assustado, diz que não é nada disso, que é brincadeira e o mexicano então começa a rir e solta: estou te tirando cara, é tudo brincadeira. Na primeira cena você já percebe, seja pela péssima atuação do elenco ou pela direção nada eficaz de Michael Tiddes, que aquilo tudo é uma encenação sem a menor graça. Agora imagine repetir isso por 3, 4, 5 vezes ou mais durante a projeção: e vocês reclamando da piada do tio do pavê. Além da piada com o mexicano (que repito, não existe graça alguma e isso não é pelo fato de ser brasileiro e/ou supostamente não vivenciar diariamente com americanos e o caso de mexicanos imigrantes e, em muitos casos, ilegais, na terra do Tio Sam) observamos a todo instante o confronto branco x negro, dessa vez tendo como base a raça negra (não a banda, no campo da ruindade estamos falando de filmes...). Lembra do cão? Pois é, um dos momentos hilários do filme é naquele que o cão está esmagado e Malcolm solta a pérola: ‘liguem para o 911, avisem que o cão é branco, o cão é branco!’. Não achou hilário? Nem eu.

Mas Maza, e as referências ao ‘cinema de horror’? Elas estão lá, temos referências ao já citado A Filha do Mal, tendo a leve impressão que no começo tem uma referência ao Caça-Fantasmas (ok, não é cinema de horror, mas já que falei de referência), A Entidade, Possessão, Atividade Paranormal (óbvio, diria alguém...), Invocação do Mal... mas as referências, as ‘homenagens’ aos filmes são péssimas, são piadas simplórias que não esboçam nenhuma reação de possível sorriso no rosto do espectador. Reação de bocejo sim, sorriso não. Em Possessão temos as borboletas (ou seja, lá o que são aqueles seres voadores que parecem borboletas possuídas) no quarto da filha de Malcolm e a forma de como matá-las (aspirador de pó e lâmpadas por todo o quarto, alguma graça?). Em A Entidade temos um vídeo caseiro com o assassino tentando queimar as pessoas dentro do quarto e ele próprio acaba se incendiando (sério, onde está a graça nisso tudo, estaria Wayans e sua equipe pensando no público piromaníaco? Nem eles achariam humor nisso, pois não existe: relembro essa cena com meu lado incendiário aflorando e... não tem jeito, não tem graça. Até os incêndios e torra-torra de extintores de incêndios utilizados semanalmente na extinta A Turma do Didi causavam alguma graça. Sim, para comparar esse filme e falar que naquele seriado do Trapalhão, aquilo era muito engraçado perto deste filme... vai imaginando como é esta obra). Em Atividade Paranormal as referências óbvias de câmeras ligadas na madrugada para flagrar algum momento surpreendente. E como a família Wayans não é burra (ninguém é burro ou desprovido de inteligência e consegue fazer um filme assim tendo continuação, inteligentes eles são em alguma área... não relacionada ao cinema, evidentemente), sabem aquela expressão que a TV tem conseguido ser melhor que o cinema? Alguém recentemente não usou bastante esse tipo de comentário tendo como base Breaking Bad? Ora, ela não poderia faltar em cena, com um cientista doidão que em determinados momentos do longa aparece com diarreia (de novo, já esgotou a paciência essas piadas e outros envolvendo caganeira, deu, chega, fim, acabou) ou com dezenas de mulheres em meio a um laboratório, todas elas com peitos volumosos e seminuas, pois como diria o amigo e crítico do Ligado em Série André Costa: nudez feminina gratuita, simples assim. E o melhor: temos referências à Invocação do Mal, desde o casal que tentará exorcizar a casa da família Malcolm até Annabelle (sim, a boneca).

E falar de Annabelle é falar de outro ponto crucial do filme: não basta não ter ritmo, elenco (que elenco?) fraco, não ter um roteiro propriamente dito... o que seria de um filme desses sem aqueles momentos de apelo sexual! Mas eles extrapolam todo e qualquer limite do racional. Se no primeiro filme tínhamos transas envolvendo bichos de pelúcia, aqui observamos a boneca Annabelle sendo objeto de desejo sexual de Malcolm. Falando assim parece pouco (além disso, ele é um stalker de primeira, mas não entrarei em detalhes sobre esse ponto). Não é. Observamos uma espécie de mini Kama Sutra, com Wayans ‘transando’ com Annabelle em diversas posições, das formas mais absurdas possíveis (absurdas, pois não são dois seres humanos, até uma pessoa sozinha pode simular seus momentos de prazer sexual de forma, por assim dizer, solitária, mas uma pessoa e uma boneca pequena e esta não sendo nem inflável... nada justifica) e proporcionando os momentos mais constrangedores do cinema desde sei lá quando (não sei se fiquei tão constrangido assim vendo As Aventuras de Agamenon, o Repórter... pois é, sinta o ‘naipe’ da produção de “IP 2”). Mas claro, ele tenta se fazer de politicamente correto pois mostra que está transando com camisinha... na verdade estava, pois lá pelas tantas ele tira e volta a maltratar a boneca. E convenhamos, alguém precisa seriamente de uma avaliação psicológica e tudo mais por ter fetiche por uma boneca demoníaca e de bigodinho, nem Freud explicaria. Nem ele, nem ninguém. Some-se situações em que palavras como pau, bunda, vagina e outros rolam solta. E para fechar essa parte de alguns dos momentos ‘brilhantes’ do filme: apenas posso acreditar que Wayans estava querendo homenagear Garganta Profunda e Para Maiores fazendo uma garota abrir a boca e surgir a imagem de um grande pênis e sua cabeça quase saltando da moça (tentando ser educado, mas a vontade é baixar o padrão de escrita, assim como o filme faz o tempo todo, mas... estou me segurando): “se Hugh Jackman apareceu com ‘bolas no queixo’ em Para Maiores, posso fazer algo parecido”, deve ter pensado Wayans e cia.

Finalizando da mesma forma que a maioria dos filmes do gênero (para alguém falar, logo ao término do filme: ‘vai ter a continuação, garanto’!), Inatividade Paranormal 2 ainda perde tempo trazendo de volta Kisha, para atormentar a vida de Malcolm. Como não existe graça alguma nisso, fomos obrigados a ver relatos de Malcolm com sua ex, e não sendo o bastante, temos flashbacks absolutamente desnecessários envolvendo isso. Saudades de Corra que a Polícia Vem Aí, Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu, Top Secret e outros tantos filmes que eram sátiras bem feitas e que não precisavam apelar para o mau-gosto e baixaria para conquistar o riso fácil e natural da plateia. Em ‘IP 2’, o riso só acontece se for arrancado, forçado e claro, um riso falso e que não engana ninguém, tal qual o filme... vamos aguardar para ver quem será o objeto de desejo sexual de Marlon Wayans em um próximo filme da ‘franquia’... saudades Leslie Nielsen, saudades.

Observação final: por uma falha na cópia, acabei vendo a versão dublada do filme (uma série de fatores, que não vem ao caso detalhar, fizeram isso acontecer) e achei bastante deficitária, incluindo algumas palavras e trocadilhos que não faziam maior sentido muito provavelmente por ser uma versão dublada. Ou o filme com som original a piada já era sem sentido e isso foi transmitido para o áudio em português, vai saber.

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