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03/04/2015

Porta a Porta: A Política em Dois Tempos

Uma campanha acirrada, um território dividido entre o vermelho e o azul, a expectativa a respeito da informação da votação de cada seção... qualquer semelhança com o recente panorama político Brasileiro não me parece mera coincidência. Resumindo, uma mudança considerável: ao invés de uma nação de 200 milhões de habitantes com mais da metade de votantes, uma pequena cidade do interior de Pernambuco, com 80 mil habitantes e 50 mil votantes. Porta a Porta: A Política em Dois Tempos aborda eleições municipais de 2008, seus candidatos a vereadores, mas principalmente: como uma eleição mexe com uma cidade pequena.

Dirigido por Marcelo Brennard, o documentário tem clara – e declarada – inspiração no excepcional Entreatos, de João Moreira Salles. Inicialmente a ideia era acompanhar a jornada de Fernando Rezende e toda sua militância e esforços para ganhar os votos e se eleger como vereador de Gravatá. Começando com 90 dias antes das eleições, Fernando conversa com cada morador, entra em suas casas, pede seu voto de casa em casa (ou se preferir, de ‘Porta a Porta’). Mas com o passar da projeção a jornada do pretendente a vereador vai deixando de ser o foco principal. Observamos como a política mexe na vida desses moradores.

Gravatá é uma cidade paupérrima, não tem fábricas, grandes empresas, construção civil, nada disso. Seus moradores vivem de bicos: uma vende salada de frutas pelas ruas, outra vive lavando roupa, outro tenta viver de taxista em um carro velho e assim por diante. Muitos deles não têm emprego: a chegada do período eleitoral é a possibilidade de alavancar sua renda, carregando bandeiras de até 12 kg, passando boa parte do dia circulando com elas para ganhar a pequena fortuna de 70, quem sabe 80 reais por semana. Para quem até então precisava se virar com 100 reais para pagar aluguel, luz e outros para a família, a eleição é lucrativa e bem-vinda.

Brennard nos mostra de forma simples e objetiva, sem maiores alardes, que a política é igual em tudo quanto é local, mudando apenas as promessas ou vanglórias: vários candidatos prometem creches, creches são essenciais nas promessas daqueles candidatos. Outro candidato que tenta a reeleição tem o orgulho de dizer: no meu mandato consegui a colocação de 3 semáforos na cidade. E que ainda estão lá, funcionando. Para uma cidade sem grandes atrativos comerciais e industriais, com pessoas muitas vezes miseráveis e sem esperança alguma, colocar semáforos na cidade lembrou pra mim certo Porto dos Casais cujos vereadores, em determinados períodos do ano, falam com êxtase que criaram dezenas de projetos para mudar nomes de ruas: na prática são projetos de melhoria, mas convenhamos que poderiam – e deveriam – realizar muito mais do que isso.

Outro aspecto positivo do documentário é o fato de não existir um posicionamento e maior intromissão do documentarista: ao mesmo tempo em que sabemos que o ‘partido azul’ é situação e o ‘partido vermelho’ é oposição, não existe um posicionamento de porque esse ou aquele precisa ganhar. Claro, em alguns momentos observamos o candidato Resende e sua militância tentando votos e alegando que como está não podemos continuar, que quem está na atual prefeitura não fez nada, etc. Para isso destaco uma entrevista: uma senhora idosa, sem fala, quase paralisada com a câmera filmando. A militância falando sobre por que votar no candidato da oposição e ela ali, sem reação, olhar distante, vazio. Muito provavelmente saiba que sua vida não irá mudar em nada independente de quem for eleito, o vermelho ou azul, o Grêmio ou Inter, a Dilma ou Aécio, o preto ou azul, o branco ou dourado: sua vida miserável seguirá até o dia de sua morte.  Em contraponto a isso, em momento algum observamos candidatos, entrevistados e outros falando sobre Bolsa-Família ou qualquer benefício do Governo Federal que porventura aquelas pessoas venham a receber e que poderia representar um destaque desnecessário no documentário, muito mais no sentido de demonstrar o que isso representa na vida daquelas pessoas e ainda podendo soar como algo claramente partidário.

Com o passar do segundo e terceiros atos, Porta a Porta toma uma decisão de intercalar depoimentos entre o período pré-eleição e passados um ano das eleições. Esse efeito flashforward não acrescenta em nada naquele momento da narrativa da obra, tudo aquilo poderia ser mostrado de forma linear e não traria maiores problemas para o que estava sendo exposto. Tal decisão, se não compromete a qualidade da obra, tampouco se mostra uma decisão acertada. A meu ver foi apenas desnecessária.

Em seu terceiro ato, com a proximidade iminente da eleição, os ânimos se acirram. Discussões de bar acontecem, campanhas são intensificadas e as pessoas começam a escancarar sua realidade: o importante para muitos daqueles entrevistados não é um projeto para a cidade, não é a ideia de como melhorar o local e a comunidade, o importante é obter um cargo na prefeitura. Foi assim com um dos entrevistados, que faltando três dias para as eleições ‘virou a casaca’ pois tinha a possibilidade de ter uma vida melhor com o candidato da situação, caso fosse eleito (no fim das contas é mostrado a vida do tal entrevistado passado um ano das eleições). Outro entrevistado é ainda mais direto. Em um pequeno morro ele observa de um lado os militantes azuis e nem 500 metros dali os vermelhos. Quando perguntando sobre o que acha isso, militâncias tão próximas, fala algo como: por mim eu quero ver eles todos juntos, misturados, brigando, quero ver o circo pegar fogo. Quem eu apoio? Eu vou apoiar quem ganhar, quem estiver no governo, pra tentar ganhar uma vaga, um cargo na prefeitura. Se no senado, nos Governos Estaduais e Federais, se em tudo que é lugar acontece isso a todo o momento, como não acontecer na base da pirâmide? Complicado.

Ainda a destacar é a participação de políticos de fora da região em comícios, com discursos absurdos e fora da realidade daquele povo: do lado azul aparece o até então Governador de Minas Gerais, Aécio Neves, falando que ‘ninguém conhece o funcionamento da máquina pública’ como o candidato tal (oras carambolas, quem lá está preocupado ou entende sequer algo a respeito da falada máquina pública?). No lado vermelho o ex-ministro da saúde do Governo Lula, Humberto Costa, fala com orgulho e empolgação sobre ter sido um dos apoiadores da criação do Hospital da região, mesmo local que antes os entrevistados definem como ‘Hospital Dipirona’: chega o doente lá, te jogam o mesmo remédio de sempre e é liberado, sem maiores exames/consultas/precaução de doenças, etc. E se comentei anteriormente de um candidato e seus 3 semáforos, o que falar do atual prefeito que fala que ainda no seu mandato serão instaladas 10 vigas na cidade? E (pelo menos) uma delas foi documentada. E tem carro de música para a inauguração/colocação de uma viga na cidade. Não é a inauguração de uma ponte, não é a criação de um empreendimento imobiliário, não é a chegada do Palhaço Donald na cidade, não é o cara da casa ‘quer pagar quanto’ chegando no local... ora, não é nem a chegada da Mesbla, das Lojas Cauduro, da Ughini Magazine, da J.H. Santos e nem a H.M. na cidade (essas últimas lojas nem todos com mais de 30 anos entenderão as referências), é a tão somente colocação de uma viga de concreto em um ponto da cidade. Mas a política do pão e circo é um pouco disso. Ou se não é disso, pelo menos temos o circo armado. E os palhaços? Bom, fica a critério de cada um definir se eles existem e onde eles estão no contexto da história.

Encerrando o documentário com um entrevistado atípico, que é alheio às eleições, torce pelo fim delas e quer ter um trabalho na região (que por sinal não consegue e vai tentar a vida em São Paulo), Porta a Porta é um documentário que pode não ter o mesmo reconhecimento de outros tantos tratando de política, mas é uma experiência no mínimo interessante para conhecer a influência das eleições em pequenos municípios, onde aquilo não é tão somente a disputa pelo poder: é a movimentação econômica de uma região e a esperança de um pouco mais de grana no bolso e melhor situação para viver. Mesmo que seja apenas na época das eleições, para depois a ampla maioria dos eleitorados serem esquecidos ou ignorados eternamente.

Equívoco meu: não ignorados eternamente.

De 4 em 4 anos temos eleições municipais.

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