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17/07/2015

Eu e Max - Devaneios e bobagens sobre Mad


OBSERVAÇÃO INICIAL: Não espere nada do texto abaixo. NADA. Tem SPOILERS e é bem descompromissado. Leia por sua conta e risco.



Lembrar da Trilogia Mad Max é lembrar um pouco de minha infância (ou algo mais), por assim dizer. Do primeiro filme, eu sempre me lembro das chamadas do SBT para a exibição em uma sexta pela noite (acredito que era antes ainda de existir ao “Cinema em Casa”), do protagonista tirando os óculos, das motos voando para fora da ponte. E claro, da mulher (com o filho nos braços) correndo, dos motoqueiros chegando, do tênis de uma criança e uma bolinha jogada no asfalto, mãe e filho escanteados, ignorados, atropelados: mortos. Já no segundo, este tendo sido exibido em uma quarta-feira em meados de 1990, na Globo (possivelmente em algo do tipo “Cinema Especial”), lembro de mais detalhes: da música, do futuro triste no deserto, do Gibson comendo comida de cachorro, das loucas perseguições, de um carro passando a mil por uma lona e debaixo dela surgia um casal transando (com 10 anos eu já tinha ares de safadeza). E sobre o terceiro, era algo ainda mais curioso: iria ser exibido na Tela Quente, em março de 1991 se bem me lembro. Nos dias anteriores os comerciais eram apenas sobre A Cúpula do Trovão, Tina Turner e tudo mais. No sábado, antevéspera da exibição, fui a um aniversário de um amigo. Noite abafada, suor escorrendo pelo rosto e resto do corpo, tempo aberto. Lá pelas tantas estávamos eu, o aniversariante anfitrião, o primo do anfitrião e umas duas garotas. Alguém (gênio) pediu para uma das garotas, mais velha que nós, falar quem era o mais bacana/bonito de nós. Ela apontou para o anfitrião (boca livre e a pessoa ainda detonar o aniversariante seria um desrespeito. E um atentado a própria saúde) como o melhor e mais bacana. Logo depois falou do primo e tals. Um silêncio. E os dois: “tá, e ele (no caso eu)?” A resposta: “ahhhhh, ele parece ser legal, simpático... mas sabe, só conheci agora, não posso falar muito, etc.”. Em outras palavras: eu era o nada, o cara a ser esquecido. Naquela trilogia de pessoas eu era basicamente a falha do sistema: eu era a cúpula do trovão! Tirando o fato da Tina (não a namorada do Rolo e sim a cantora) ter aqueles lindos cabelos e o filme ter um confronto explosivo que termina de forma ‘chocante’. Eu pouco me lembrava do resto, apenas da parte supostamente boa.

Revendo a trilogia esses dias, fica claro que o terceiro filme é uma falha grotesca. As atuações por vezes são muito artificiais, a ação é pífia, a trilha sonora em certo momento faz achar que lá pelas tantas irão aparecer os Ewoks e o filme mudará de nome para Caravana da Coragem e assim por diante. Escrevo tudo isso para dizer que trocentos anos passaram e nem estava tão empolgado para ver o ‘novo’ Mad Max. Mas as sessões matinais, elas, invariavelmente, sempre me conquistam. E então fui para aquela sessão de 11h35 de sábado sem saber muita coisa do novo filme. Apenas que os elogios não paravam de surgir, como areia no deserto australiano. E diga-se: são plenamente justificáveis.



A Sinopse de Mad Max: Estada da Fúria é: “não falem sobre isso”.

“Mas cara, entrei aqui só para isso...” Azar é o seu, esse texto não é para você.

Tá, uma canja. Futuro pós-apocalíptico, água e combustíveis escassos, deserto, ação, perseguição, correria, essas coisas.

Mad Max: Estrada da Fúria já é plenamente arrebatador em seus segundos iniciais. E assim segue durante praticamente todo filme. Tanto que a primeira hora do longa é tomada de 3 grandes cenas de ação, culminando com uma embasbacante tempestade de areia alucinante, tanto pela correria quanto pelas imagens, que muda a paleta de cores para vermelho, para azul, para preto-e-branco, sem que isso pareça algo carnavalesco ou risível. Aliado a isso, uma trilha sonora trepidante, para completar toda a tensão existente no longa.


“Mas Mad Max: Estrada da Fúria é uma sequência, preciso ter visto os demais filmes?”. Não. E ao mesmo tempo não é um reboot. Sei lá. Parece um (belo) recomeço. Claro, se você tiver visto os filmes anteriores irá captar algumas homenagens ou situações que já aconteciam nos outros longas, tais como: a pequena caixa de dar corda e que emite o som de uma música (Mad Max 2, quando o Guerreiro das Estradas dá de presente para o futuro líder daquela geração), o anão estranho e seu filho (da mesma forma que o anão e o Gigante cabeça de aço, da Cúpula do Trovão), o vilão do primeiro Mad Max (o ator é o mesmo em ambos os filmes, embora seja um personagem diferente), um instrumento musical tocando de fundo e que você, em algum momento, possa acreditar fazer parte da trilha sonora quando na verdade é algum personagem tocando (esposa de Max no primeiro filme e algum capacho da Tina no terceiro filme, ambos tocando saxofone)  e assim por diante. Nada contra saxofone, adoro seu som, mas no meio na insanidade do deserto australiano, em meio a perseguições insanas e outros, ter um cara tocando guitarra que solta labaredas de fogo é uma ideia que poderia parecer cafona, mas ó: que coisa genial no filme!


Falando em personagens como o guitarrista e seu instrumento fumegante, temos é claro Max Rockatansky, que, interpretado por Tom Hardy, não faz com que os fãs da trilogia original fiquem viúvos ou amargos por não ter de volta ao papel Mel Gibson (na verdade alguns até ficaram, mas são pessoas xiitas, radicais, que não aceitam mudanças para melhor nem nada do tipo: em suma, não merecem maior atenção). Na verdade é um novo personagem, com outros dramas e conflitos, Hardy se encaixou bem no papel. Temos o já citado vilão interpretado por  Hugh Keays-Byrne, ora Toecutter no primeiro filme e que aqui vive o alucinado Immortan Joe. Seu visual fica ainda mais do caralho quando observado com sua máscara visualmente fodástica.


Poderia ficar falando ainda de vários outros personagens, mas muito mais foda do que o protagonista ou o vilão, é aquela moça linda e que, 18 anos atrás, estourou no cinema, por vezes sensual e ingênua, sendo par romântico do filho do capeta em Advogado do Diabo (‘Ah, SPOILER SPOILER cara! Eu não vi o filme!’... Primeiro: azar o seu. Segundo: azar o seu, pois é um filme... infernal. Terceiro: Eu avisei que tinha spoiler no texto), Charlize Theron, com sua Imperatriz Furiosa. Theron traz em Furiosa uma pessoa de poucos diálogos em um primeiro momento, mas que com o passar da projeção, se torna até mais importante na trama do que o próprio Max. Como bem disse o cineasta Felipe Iesbick: Furiosa é uma das personagens femininas mais sensacionais que o cinema de ação já nos trouxe”. E ainda mais um pouco sobre Furiosa: por trás daqueles olhos pesados, naquela maquiagem propositalmente negra, existe um universo feminino dos mais poderosos (uma cena em especial do segundo para o terceiro ato é bem delicada e tocante, o que é – mais uma proeza – em se tratando de um filme de ação e recheado de personagens masculinos). É ótimo e sempre positivo termos personagens femininos intensos e marcantes no cinema.



Entregando cenas de ação empolgantes, um terceiro ato que mantém a intensidade do primeiro e a qualidade emocional do segundo, Mad Max: Estrada da Fúria é um recomeço e tanto do diretor George Miller. Um cara de 70 anos que já fez de Gibson um guerreiro no deserto, criou um pinguim dançante, um porquinho com uma empatia impressionante, um Jack Nicholson garanhão e com várias mulheres em volta (bom, isso talvez não seja apenas méritos do vô George...) e que, após tudo isso, ainda traz um quarto filme superior a todos os outros. Abrindo possibilidades para continuações e expandindo aquele universo praticamente masculino, para algo mais amplo, com guerreiros sim, mas também, com guerreiras de fibra e intensidade capazes de segurarem tranquilamente um longa sozinho, sem que o protagonista seja um macho alfa.


Palmas, Sr. Miller. Palmas!

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